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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

E Ainda Outra Questão de Estética: Será Arte?

"Brillo Boxes", Andy Warhol, madeira e serigrafia, 1964

Em 1964 Andy Warhol exibiu na Stable Gallery, NY, uma obra de arte intitulada Brillo Boxes (ver imagem). O design não é de facto seu mas sim de um outro artista comercial chamado James Harvey. E a pergunta é quase imediata: será arte? E a ser arte: entre dois objetos iguais em aparência, como distinguir o que é obra de arte do que não é obra de arte?
A pergunta em tudo se assemelha a uma questão que já Descartes levantava: quando se sonha, a experiência que se vive no sonho não é discernível da experiência que se tem quando se está acordado, pelo que não há um critério interno à experiência vivida que faça a distinção entre sonho e realidade. Da mesma forma as diferenças a procurar para responder a tal questão estética poderão (terão de) ser procuradas no exterior da obra. Antes de mais convém talvez aceitar que, como dizia Marcel Duchamp, "o deleite estético é um perigo a evitar"[1] (ver "Uma Questão de Estética"). Depois será necessário aceitar que qualquer obra de arte é uma representação: a obra de arte é sobre o quê? (pergunta típica...).[1] A seguir, e não menos importante, a estrutura de uma obra de arte é diferente da estrutura dos objetos com os quais a obra se parece.[1] A ver, com uma analogia: uma palavra manuscrita aparentemente não é mais do que um conjunto de marcas e traços; mas a palavra assim construída com essas marcas e traços, dispostos e arranjados de determinada forma, é dotada de uma linguagem, de um significado. Bem entendido, a construção da palavra segundo essa linguagem é causada pela necessidade de comunicação. Mas a forma como as marcas e traços que constroem fisicamente a palavra é diferente das causas de comunicação: a forma dos traços e marcas são fruto, por exemplo, da personalidade de quem desenha as letras que constituem a palavra. A palavra tem, por isso, duas estruturas distintas: a estrutura linguística - de comunicação - e a estrutura formal - o grafismo da palavra. Analogamente então, a obra de arte terá uma estrutura diferente da do objeto com o qual ela se parece. A obra de arte terá uma estrutura que se prende mais com a intencionalidade do seu autor e com a representabilidade ("a obra de arte é sobre quê?") enquanto o objeto com o qual ela se parece terá uma estrutura que se prenderá mais com a funcionalidade. As Brillo Boxes de Warhol - e até porque a sua estrutura formal é diferente das caixas de sabão: as Brillo Boxes de Warhol são feitas de madeira enquanto as outras são de cartão - corporizam um conteúdo e um significado: elas manifestam uma afirmação e são uma metáfora de algum tipo.
Definitivamente, não são apenas caixas de sabão...

Arthur Danto sistematiza bem esta problemática da identificação das obras de arte com a enunciação de duas condições algo elementares:
a) a obra de arte deve ter um significado
b) a obra de arte deve corporizar esse significado

Estas são as duas condições essenciais para distinguir obra de arte de artefacto. Arthur Danto baseou-se numa abordagem de Ludwig Wittgenstein: quando se eleva um braço, o que resta depois de subtraído ao facto do braço estar erguido o facto de se ter erguido o braço? Há muitos exemplos para ilustrar esta questão: o movimento socialista, a saudação fascista, o movimento Black Power, etc., são gestos que não se reduzem apenas ao braço erguido. Da mesma forma, o que resta depois de se subtrair a facto de algo ser uma obra de arte o facto de ser um objeto?[2]

Um outro teórico da arte, Monroe Beardsley, haveria de certa forma resumir: uma obra de arte é algo produzido com a intenção de lhe dar a capacidade de satisfazer o interesse estético.


[1] Arthur C. Danto, "Art, Philosophy and the Philosophy of Art", 1983
[2] Arthur C. Danto, "Ontology, Criticism, and the Riddle of Art Versus Non-Art in The Transfiguration of the Commonplace", 2008

Para saber mais
Arthur Danto: Wikipedia
Arthur C. Danto, "Art, Philosophy and the Philosophy of Art", 1983
Arthur C. Danto, "Ontology, Criticism, and the Riddle of Art Versus Non-Art in The Transfiguration of the Commonplace", 2008
Monroe Beardsley, "An Aesthetic Definition of Art", 1983
Andy Warhol: Wikipedia
                        Andy Warhol Museum
                        Andy Warhol Foudation

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Uma Questão de Estética

Cy Twombly, "Paisagem", 1951, tinta industrial, óleo e colagem, 27,9 x 53,3 cm

Não é raro uma pessoa menos instruída questionar um artista quanto à estética da sua obra. E menos raro ainda será questioná-la segundo o seu próprio gosto, arriscando-se a confundir os dois conceitos (estética e gosto). Há muita obra artística espalhada por museus e exposições que definitivamente também eu não gosto mas que vejo forçado a admitir que, caramba, são arte! E ainda por cima são arte evoluída!
Mas do que se fala quando se fala de estética?
Em qualquer dicionário poderemos encontrar uma primeira definição de estética como sendo o ramo da filosofia que estuda o belo; ou a ciência cujo objeto é o juízo de valores referentes à distinção entre o belo e o feio. A etimologia da palavra, no entanto, diz uma coisa bem mais abrangente: [do grego] aesthesis, a perceção pelos sentidos. Esta é uma definição transversal a várias culturas e cujo objeto - o belo - é a qualidade que provoca uma emoção, i.e., o atributo que qualifica os objetos ou obras que se oferecem à (nossa) perceção. No domínio artístico, esses objetos ou obras não carecem de entendimento antes que a subjetividade (ou seja, a interpretação, a sentença pessoal) seja solicitada ao apreciador dessas obras ou objetos. Por exemplo: uma máquina de café e um quadro de Cy Twombly (para ser bem abstrato, vá) são ofertadas à perceção de um indivíduo. A máquina de café não solicita (pelo menos imediatamente) a subjetividade do indivíduo, pois é de senso comum qual a aparência e funcionalidade desse objeto. O quadro de Cy Twombly, por outro lado, e até porque é abstrato, solicita imediatamente a subjetividade do apreciador: ele terá uma interpretação muito sua do que os seus olhos vêem e que muito provavelmente será diferente da de outros observadores perante a mesma obra. E é depois dessa solicitação da subjetividade - e por conseguinte, de uma emoção - que começa o trabalho de entendimento de uma obra de arte.
Em arte o belo propõe obras que visam sempre agradar ao apreciador ainda que muitas vezes elas sejam desagradáveis. Muitas vezes é aquilo a que eu chamo O Princípio do Pug*: são tão feios, tão feios que se tornam belos. Pressupõe-se por isso que há uma intenção por parte do criador da obra artística em proporcionar uma experiência estética ainda que esta não seja do nosso agrado. Posso não gostar de uma quadro de Dalí mas o modo como tal obra corporiza a sua aesthesis levam-me a admitir que é arte.


* Pug: raça de cães de companhia oriunda da China (podem vê-los aqui)

Para saber mais:
[De um dicionário de filosofia do qual tive acesso a fotocópias mas que infelizmente não me foi dado a conhecer a edição original]